Uma das bebidas mais consumidas pelos brasileiros pode ter efeitos no organismo que vão muito além de espantar o sono. Uma pesquisa científica revelou que o café, tanto na versão tradicional quanto na descafeinada, pode modificar as bactérias do intestino e influenciar funções relacionadas à memória, à atenção e ao bem-estar emocional.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Cork, na Irlanda, e publicado na revista científica Nature Communications, investigou como o consumo de café interfere na comunicação entre o intestino e o cérebro.
A pesquisa foi liderada por uma equipe que inclui o neurobiólogo John F. Cryan, especialista internacional no chamado eixo microbiota-intestino-cérebro.
Os resultados indicaram que os efeitos da bebida não dependem exclusivamente da cafeína. Outros compostos naturais presentes no café também podem participar das alterações observadas no organismo.
Entretanto, os cientistas ressaltam que os resultados são preliminares e não demonstram que beber café seja capaz de prevenir ou tratar doenças mentais.
Café pode modificar as bactérias que vivem no intestino
Uma das principais descobertas envolve a microbiota intestinal, conjunto de trilhões de microrganismos que vivem no sistema digestivo.
Essas bactérias participam de diferentes funções do organismo, incluindo a digestão, o metabolismo e a produção de substâncias que interagem com outros sistemas do corpo.
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar como a microbiota se comunica com o cérebro e pode influenciar determinadas respostas emocionais e cognitivas.
O estudo coordenado pela equipe de John Cryan identificou diferenças na composição das bactérias intestinais entre consumidores habituais de café e pessoas que não bebiam a bebida.
Entre os microrganismos encontrados em maior quantidade nos consumidores estavam bactérias dos grupos Eggerthella e Cryptobacterium.
Esses organismos estão associados a processos metabólicos e digestivos que ainda são investigados pela ciência.
A descoberta sugere que o café pode influenciar não apenas a composição das bactérias intestinais, mas também as substâncias produzidas durante seu metabolismo.
Pesquisa acompanhou 62 adultos e testou café com e sem cafeína
Para investigar os possíveis efeitos, os pesquisadores recrutaram 62 adultos saudáveis, com idades entre 30 e 50 anos.
Os participantes foram inicialmente divididos em dois grupos:
- 31 pessoas que não consumiam café: utilizadas para comparar características da microbiota e indicadores de saúde.
- 31 consumidores habituais: pessoas que costumavam ingerir entre três e cinco xícaras de café diariamente.
Na primeira etapa, os pesquisadores coletaram amostras biológicas e realizaram avaliações relacionadas ao humor, à cognição, ao estresse e à composição da microbiota.
Em seguida, os 31 consumidores habituais ficaram duas semanas sem tomar café ou consumir outras fontes relevantes de cafeína.
Depois desse período, foram divididos aleatoriamente em dois grupos para retomar o consumo da bebida durante três semanas:
- 16 participantes receberam café com cafeína.
- 15 participantes receberam café descafeinado.
Todos receberam quatro porções diárias de café solúvel, seguindo as condições estabelecidas no protocolo experimental.
Durante o acompanhamento, os cientistas analisaram amostras biológicas, questionários e testes cognitivos para identificar possíveis alterações.
Café descafeinado surpreendeu nos testes de memória
Um dos resultados que mais chamaram atenção ocorreu entre os participantes que receberam café sem cafeína.
Durante os testes, esse grupo apresentou melhoras em determinadas avaliações de aprendizagem e memória episódica verbal, capacidade relacionada à lembrança de informações e experiências.
Os participantes também relataram melhorias na qualidade do sono e na prática de atividades físicas.
Os resultados levantaram a possibilidade de que outros compostos presentes no café, além da cafeína, tenham participação nos efeitos observados.
Entre essas substâncias estão os polifenóis, compostos naturais encontrados em diversos alimentos de origem vegetal.
Entretanto, os pesquisadores destacam que parte das melhorias em testes cognitivos pode estar relacionada à repetição das próprias atividades durante o estudo.
Por isso, ainda não é possível afirmar que beber café descafeinado melhore a memória de maneira permanente ou previna doenças como Alzheimer.
Café tradicional apresentou efeitos diferentes sobre atenção e ansiedade
Enquanto o descafeinado chamou atenção pelos resultados relacionados à memória, o café com cafeína apresentou outros efeitos.
Os participantes que retomaram o consumo da versão tradicional demonstraram melhorias em determinadas avaliações de atenção e vigilância.
Também houve redução nas pontuações de ansiedade e sofrimento psicológico relatadas por esse grupo durante o acompanhamento.
Esses resultados são compatíveis com o papel estimulante da cafeína sobre o sistema nervoso central.
A substância atua principalmente bloqueando receptores de adenosina, molécula envolvida na regulação do sono e da sensação de cansaço.
Isso ajuda a explicar por que o café costuma aumentar temporariamente o estado de alerta.
Entretanto, os resultados não significam que a cafeína diminua a ansiedade em todas as pessoas.
Dependendo da quantidade ingerida e da sensibilidade individual, o consumo pode provocar nervosismo, agitação, palpitações e dificuldades para dormir.
Estresse e sintomas depressivos também apresentaram mudanças
Outro resultado observado pelos cientistas envolveu os indicadores de bem-estar emocional.
Após a reintrodução do café, tanto os participantes que receberam a versão tradicional quanto os que consumiram descafeinado apresentaram reduções nas pontuações de estresse percebido, impulsividade e sintomas depressivos.
As mudanças foram identificadas por meio de questionários aplicados durante o estudo.
Isso chamou a atenção dos pesquisadores porque indica que a cafeína não explica, isoladamente, todos os efeitos observados.
A hipótese é que diferentes substâncias presentes no café possam influenciar processos metabólicos e a interação entre microrganismos intestinais e o organismo humano.
Entretanto, é importante destacar que os participantes eram adultos saudáveis e não pessoas em tratamento para depressão ou transtornos de ansiedade.
A pesquisa não demonstrou que o café funcione como antidepressivo ou substitua tratamentos médicos e psicológicos.
O que é o eixo intestino-cérebro?
Para compreender a importância da descoberta, é necessário conhecer o chamado eixo microbiota-intestino-cérebro.
Esse sistema envolve mecanismos de comunicação entre o trato gastrointestinal, os microrganismos intestinais e o sistema nervoso central.
A comunicação acontece por diferentes caminhos, incluindo sinais nervosos, substâncias metabólicas, hormônios e mecanismos ligados ao sistema imunológico.
A microbiota também participa da produção e transformação de substâncias capazes de influenciar processos fisiológicos.
Por esse motivo, cientistas investigam como alimentação, sono, atividade física e outros hábitos podem modificar a microbiota e suas relações com a saúde.
O café entrou nesse campo de investigação porque contém centenas de compostos químicos que podem interagir com o sistema digestivo.
Entre eles estão a cafeína, os ácidos clorogênicos e outros polifenóis.
A pesquisa sugere que algumas dessas substâncias podem favorecer mudanças na atividade das bactérias intestinais, independentemente da presença de cafeína.
Estudo anterior também identificou relação entre café e bactérias intestinais
A investigação publicada em 2026 reforça resultados observados em trabalhos científicos anteriores.
Em novembro de 2024, um estudo publicado na revista Nature Microbiology analisou dados alimentares e microbiológicos de dezenas de milhares de pessoas.
Os pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo de café e a presença de uma bactéria chamada Lawsonibacter asaccharolyticus.
A relação apareceu tanto entre consumidores de café tradicional quanto entre pessoas que utilizavam a versão descafeinada.
Experimentos realizados em laboratório também identificaram que componentes do café poderiam favorecer o crescimento desse microrganismo.
Entretanto, os benefícios clínicos específicos relacionados ao aumento dessa bactéria ainda não estão claramente estabelecidos.
A descoberta reforça o interesse científico em compreender como bebidas e alimentos comuns podem influenciar a microbiota humana.
Quantas xícaras de café podem ser consumidas por dia?
Embora os resultados sejam promissores, isso não significa que consumir grandes quantidades de café seja recomendado.
Segundo a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), a ingestão de até 400 miligramas de cafeína por dia geralmente não representa preocupação de segurança para adultos saudáveis.
Esse limite considera todas as fontes de cafeína consumidas ao longo do dia, incluindo café, chás, refrigerantes e energéticos.
A quantidade presente em cada xícara varia conforme o tipo de grão, o modo de preparo e o volume da bebida.
A agência também alerta que aproximadamente 100 miligramas de cafeína próximos ao horário de dormir já podem prejudicar o sono em algumas pessoas.
Gestantes, pessoas com determinadas condições de saúde e indivíduos especialmente sensíveis à cafeína precisam de orientações específicas.
Portanto, os resultados da pesquisa não devem ser interpretados como uma recomendação para aumentar o consumo habitual da bebida.
Descafeinado pode ser uma alternativa para quem evita estimulantes?
O estudo também amplia o interesse pelo café descafeinado.
Como muitos de seus compostos naturais permanecem presentes após a retirada de grande parte da cafeína, a bebida pode conservar características relevantes para as interações observadas com a microbiota intestinal.
Isso não significa que o café descafeinado seja completamente isento de cafeína ou que produza os mesmos efeitos em todas as pessoas.
Entretanto, para quem deseja reduzir o consumo de estimulantes, essa versão pode representar uma alternativa, dependendo das condições individuais.
A pesquisa reforça que as diferenças entre café tradicional e descafeinado precisam ser investigadas em estudos maiores e realizados durante períodos mais longos.
Cientistas pedem cautela antes de transformar resultados em recomendações
Apesar das descobertas, o estudo apresenta limitações importantes.
A pesquisa envolveu apenas 62 adultos, e somente 31 participaram da fase experimental de retirada e reintrodução do café.
Além disso, o acompanhamento após o retorno da bebida durou três semanas.
Esse período é insuficiente para determinar os efeitos do consumo ao longo de anos ou décadas.
Os pesquisadores também observaram que algumas diferenças nos testes cognitivos poderiam estar relacionadas à repetição das avaliações.
Outro ponto importante é que mudanças na composição da microbiota não significam automaticamente uma melhora comprovada da saúde.
Ainda são necessários estudos mais amplos para esclarecer quais alterações são efetivamente benéficas e se os efeitos podem ser reproduzidos em diferentes populações.
Café pode ter mais efeitos do que se imaginava
A investigação publicada na Nature Communications, em abril de 2026, amplia a compreensão sobre uma bebida presente na rotina de milhões de pessoas.
Os resultados mostram que o café não deve ser analisado exclusivamente por sua capacidade de aumentar a disposição e diminuir temporariamente o cansaço.
A composição química da bebida também pode influenciar microrganismos intestinais e processos associados ao funcionamento do organismo.
Para John Cryan e sua equipe, os resultados abrem caminho para novas investigações sobre alimentação, metabolismo e comunicação entre intestino e cérebro.
A principal descoberta é que tanto o café tradicional quanto o descafeinado podem modificar a microbiota intestinal e estão associados a diferentes respostas relacionadas ao humor e à cognição.
Entretanto, ainda não há evidências suficientes para afirmar que o consumo de café previna doenças mentais ou provoque melhorias duradouras na memória.
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