O crescimento do uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida para diabetes e obesidade trouxe também uma dúvida que preocupa muitos pacientes: as chamadas canetas emagrecedoras podem provocar câncer de tireoide?
Até o momento, a resposta mais correta segundo as evidências disponíveis é: não existe comprovação de que esses medicamentos causem câncer de tireoide em seres humanos.
A preocupação, entretanto, não surgiu por acaso.
Por que existe um alerta sobre a tireoide?
Durante testes realizados em roedores, medicamentos dessa classe provocaram tumores das chamadas células C da tireoide.
Por isso, informações de segurança relacionadas ao possível risco passaram a fazer parte das bulas de alguns agonistas de GLP-1.
A própria Anvisa registra que tumores de células C apareceram em estudos com semaglutida realizados em ratos e camundongos. A agência destaca, entretanto, que os roedores são particularmente sensíveis a esse mecanismo e que a relevância para seres humanos é considerada baixa, embora não possa ser completamente descartada.
O que aconteceu quando os pesquisadores estudaram pessoas?
Os resultados em humanos vêm sendo bem mais tranquilizadores.
Um grande estudo publicado em 2025 na revista Diabetes Care avaliou dados de mais de 460 mil usuários de agonistas de GLP-1 e comparou essas pessoas com pacientes tratados com outras classes de medicamentos para diabetes.
Os pesquisadores não encontraram aumento do risco de tumores da tireoide entre usuários de GLP-1.
Outro estudo envolvendo dados da Dinamarca, Noruega e Suécia também não encontrou aumento substancial do risco durante um acompanhamento médio de quase quatro anos.
Nem todos os estudos deram exatamente a mesma resposta
Uma análise publicada no JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery identificou mais diagnósticos de câncer de tireoide durante o primeiro ano de tratamento.
Os próprios pesquisadores, entretanto, alertaram que isso pode estar relacionado à maior investigação médica e detecção precoce entre pessoas que começaram a utilizar esses medicamentos, e não necessariamente a um câncer provocado pelo remédio.
Por isso, pesquisas de acompanhamento mais longo continuam sendo realizadas.
Quem precisa de atenção especial?
Os alertas são particularmente importantes para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e pacientes com neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2).
Nos Estados Unidos, por exemplo, a bula da tirzepatida traz contraindicação expressa nessas situações e alerta para o risco observado em animais.
A avaliação deve ser feita pelo médico considerando o medicamento específico, histórico familiar, doenças existentes e indicação do tratamento.
Não pare o tratamento por conta própria
Para quem já utiliza semaglutida, tirzepatida, liraglutida ou outro medicamento dessa classe sob orientação médica, os dados atuais não justificam interromper o tratamento apenas pelo medo de câncer de tireoide.
A recomendação é conversar com o profissional que acompanha o tratamento, especialmente se existir histórico familiar de tumores da tireoide.
Também é importante relatar sintomas persistentes como caroço no pescoço, rouquidão sem explicação, dificuldade para engolir ou respirar, que precisam de avaliação médica independentemente do uso dessas medicações.
Em resumo, o alerta existente merece atenção, mas não significa que as canetas emagrecedoras estejam comprovadamente causando câncer em pessoas. Até agora, grandes estudos populacionais não encontraram um aumento claro do risco.
Fonte: Saúde em Dia, Anvisa, Diabetes Care e estudos científicos indexados no PubMed.
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