O número de grandes empresas brasileiras enfrentando dificuldades financeiras e recorrendo a processos de recuperação cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Redes conhecidas do consumidor, como Habib’s, Casas Bahia, Marabraz, Tok&Stok, Mobly, Casa & Vídeo e Le Biscuit, além de companhias como Braskem, Raízen e Oncoclínicas, aparecem entre empresas que buscaram alternativas para reorganizar suas dívidas.
Dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação empresarial, apontam que o número de companhias em recuperação judicial aumentou 66% em três anos, chegando a 6.341 casos no segundo trimestre de 2026.
Entre os setores mais atingidos estão o varejo, responsável por 21% dos casos, a indústria de transformação, com 19,6%, e o agronegócio, com 17,5%.
Juros altos pressionam empresas
Um dos fatores apontados por especialistas é a manutenção dos juros em patamar elevado. Com a taxa básica em 14% ao ano, empresas endividadas passam a gastar mais para financiar suas operações e encontram maior dificuldade para obter capital de giro.
O problema é especialmente sensível no varejo, que depende do crédito tanto para financiar estoques e fornecedores quanto para facilitar compras dos consumidores.
Ao mesmo tempo, o elevado endividamento das famílias reduz o consumo. Segundo os dados citados pela BBC News Brasil, cerca de 39% da população está inadimplente, cenário que pode provocar redução das vendas e dificultar ainda mais a geração de caixa das empresas.
Nem tudo pode ser explicado pelos juros
Especialistas também apontam decisões empresariais tomadas nos últimos anos como parte do problema.
Durante e depois da pandemia, diversas companhias aceleraram investimentos em tecnologia, comércio eletrônico e expansão de lojas. Em alguns casos, os investimentos foram realizados contando com um cenário de crédito barato que posteriormente desapareceu com a elevação da taxa de juros.
Também houve forte redução de cargos de gestão. Entre 2020 e 2025, o Brasil eliminou milhares de vagas de gerência e diretoria, movimento que, segundo especialistas, pode ter deixado algumas empresas com estruturas menos preparadas para enfrentar períodos de crise.
Outro problema apontado é a expansão acima da capacidade de geração de caixa. Empresas que abrem muitas unidades ou assumem dívidas elevadas para crescer podem enfrentar dificuldades rapidamente quando as vendas desaceleram.
Recuperação judicial não significa falência
Apesar do cenário preocupante, recuperação judicial não significa necessariamente que uma empresa fechou as portas.
O mecanismo permite que uma companhia renegocie dívidas com funcionários, fornecedores e instituições financeiras sob supervisão da Justiça, justamente numa tentativa de evitar a falência.
Na recuperação extrajudicial, a negociação é realizada diretamente com determinados grupos de credores e posteriormente pode ser homologada pelo Judiciário.
Especialistas avaliam que, enquanto os juros permanecerem elevados e o consumo continuar pressionado, novos pedidos de recuperação podem surgir no país.
Fonte: BBC News Brasil
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