A antropóloga, pesquisadora e ativista Pisci Bruja, de 37 anos, tornou-se a primeira pessoa no Brasil a receber uma combinação experimental de medicamentos injetáveis contra o HIV com intervalo de quatro meses entre as aplicações.
Pisci vive com HIV há 13 anos e fazia tratamento diário com comprimidos. Ela tomou sua última dose oral em 21 de setembro e, no dia seguinte, iniciou o novo protocolo dentro de um estudo clínico internacional.
A pesquisa avalia uma estratégia que pode representar uma mudança significativa na rotina de pessoas que vivem com HIV: passar de medicamentos ingeridos diariamente para apenas algumas aplicações ao longo do ano.
Tratamento utiliza dois antirretrovirais
O estudo testa versões de ultralonga duração de cabotegravir e rilpivirina, dois medicamentos antirretrovirais.
As aplicações são intramusculares e o protocolo experimental avalia se o intervalo de quatro meses consegue manter o vírus controlado com segurança e eficácia.
É importante destacar que o tratamento não é uma vacina e não representa a cura do HIV.
Os antirretrovirais atuam impedindo a multiplicação do vírus e permitem manter a carga viral controlada.
Estudo compara aplicações a cada dois e quatro meses
A pesquisa é de fase 3 e pretende reunir aproximadamente 564 participantes.
O grupo que recebe a formulação experimental de ultralonga duração será comparado a participantes que utilizam o esquema injetável de longa duração já estudado e aprovado em outros países, com aplicações mais frequentes.
O principal objetivo é verificar se espaçar as doses para quatro meses mantém resultados equivalentes em eficácia, segurança e tolerabilidade.
O acompanhamento do estudo está previsto para continuar até 2029.
Brasil terá dezenas de participantes
No Brasil, a pesquisa está sendo realizada em sete centros, com previsão de inclusão de aproximadamente 63 a 77 participantes.
Pisci foi a primeira brasileira a iniciar o braço experimental com a nova estratégia.
Além de antropóloga, ela é doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e atua na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV.
Para a ativista, abandonar a necessidade de lembrar diariamente do medicamento representa não apenas comodidade, mas também uma mudança na própria relação com o tratamento.
Menos comprimidos pode trazer mais autonomia
O desenvolvimento de medicamentos de longa duração busca enfrentar um dos desafios presentes no tratamento de doenças crônicas: a necessidade de manter uma rotina medicamentosa contínua.
No caso do HIV, tomar corretamente os antirretrovirais é fundamental para manter a carga viral suprimida.
Uma terapia administrada apenas algumas vezes ao ano poderia facilitar a adesão de algumas pessoas e também oferecer maior privacidade na relação com o tratamento.
A inovação, porém, ainda precisa comprovar que consegue manter os mesmos padrões de segurança e eficácia das terapias atualmente disponíveis.
Tratamento ainda é experimental no Brasil
A nova aplicação a cada quatro meses não está disponível para uso rotineiro no país.
Neste momento, ela é utilizada exclusivamente dentro do estudo clínico e seus participantes são acompanhados pelas equipes de pesquisa.
Isso significa que pessoas que vivem com HIV não devem interromper ou modificar o tratamento atual por conta própria.
No Brasil, o SUS oferece gratuitamente terapia antirretroviral para pessoas diagnosticadas com HIV, e qualquer mudança de esquema deve ser discutida com a equipe de saúde responsável pelo acompanhamento.
Uma possível nova etapa no tratamento do HIV
O tratamento do HIV mudou profundamente ao longo das últimas décadas.
Esquemas que antes exigiam grande quantidade de medicamentos foram progressivamente simplificados, permitindo que muitas pessoas mantenham o vírus controlado com poucos comprimidos por dia.
Agora, os estudos com medicamentos de longa e ultralonga duração tentam avançar mais um passo.
Caso a estratégia de quatro meses demonstre bons resultados e futuramente seja aprovada, pessoas elegíveis poderiam reduzir de centenas de tomadas de comprimidos por ano para apenas três ciclos de aplicação anual.
Ainda é cedo, entretanto, para saber se o regime será aprovado e quando poderia chegar aos serviços de saúde.
Tags: HIV, tratamento do HIV, Pisci Bruja, saúde, antirretrovirais, cabotegravir, rilpivirina, SUS, pesquisa clínica, saúde pública, ciência