AVANÇO NA SAÚDE

Mulher trans é primeira brasileira a iniciar estudo com tratamento injetável contra HIV a cada quatro meses

Pisci Bruja, de 37 anos, tornou-se a primeira participante no Brasil de estudo internacional que avalia antirretrovirais de ultralonga duração. Estratégia experimental busca substituir comprimidos diários por aplicações realizadas a cada quatro meses.

Por · · Atualizado: 15/10/2026 14:12
Mulher trans é a primeira brasileira a receber tratamento injetável contra o HIV com aplicação a cada 4 meses

A antropóloga, pesquisadora e ativista Pisci Bruja, de 37 anos, tornou-se a primeira pessoa no Brasil a receber uma combinação experimental de medicamentos injetáveis contra o HIV com intervalo de quatro meses entre as aplicações.

Pisci vive com HIV há 13 anos e fazia tratamento diário com comprimidos. Ela tomou sua última dose oral em 21 de setembro e, no dia seguinte, iniciou o novo protocolo dentro de um estudo clínico internacional.

A pesquisa avalia uma estratégia que pode representar uma mudança significativa na rotina de pessoas que vivem com HIV: passar de medicamentos ingeridos diariamente para apenas algumas aplicações ao longo do ano.

Tratamento utiliza dois antirretrovirais

O estudo testa versões de ultralonga duração de cabotegravir e rilpivirina, dois medicamentos antirretrovirais.

As aplicações são intramusculares e o protocolo experimental avalia se o intervalo de quatro meses consegue manter o vírus controlado com segurança e eficácia.

É importante destacar que o tratamento não é uma vacina e não representa a cura do HIV.

Os antirretrovirais atuam impedindo a multiplicação do vírus e permitem manter a carga viral controlada.

Estudo compara aplicações a cada dois e quatro meses

A pesquisa é de fase 3 e pretende reunir aproximadamente 564 participantes.

O grupo que recebe a formulação experimental de ultralonga duração será comparado a participantes que utilizam o esquema injetável de longa duração já estudado e aprovado em outros países, com aplicações mais frequentes.

O principal objetivo é verificar se espaçar as doses para quatro meses mantém resultados equivalentes em eficácia, segurança e tolerabilidade.

O acompanhamento do estudo está previsto para continuar até 2029.

Brasil terá dezenas de participantes

No Brasil, a pesquisa está sendo realizada em sete centros, com previsão de inclusão de aproximadamente 63 a 77 participantes.

Pisci foi a primeira brasileira a iniciar o braço experimental com a nova estratégia.

Além de antropóloga, ela é doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e atua na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV.

Para a ativista, abandonar a necessidade de lembrar diariamente do medicamento representa não apenas comodidade, mas também uma mudança na própria relação com o tratamento.

Menos comprimidos pode trazer mais autonomia

O desenvolvimento de medicamentos de longa duração busca enfrentar um dos desafios presentes no tratamento de doenças crônicas: a necessidade de manter uma rotina medicamentosa contínua.

No caso do HIV, tomar corretamente os antirretrovirais é fundamental para manter a carga viral suprimida.

Uma terapia administrada apenas algumas vezes ao ano poderia facilitar a adesão de algumas pessoas e também oferecer maior privacidade na relação com o tratamento.

A inovação, porém, ainda precisa comprovar que consegue manter os mesmos padrões de segurança e eficácia das terapias atualmente disponíveis.

Tratamento ainda é experimental no Brasil

A nova aplicação a cada quatro meses não está disponível para uso rotineiro no país.

Neste momento, ela é utilizada exclusivamente dentro do estudo clínico e seus participantes são acompanhados pelas equipes de pesquisa.

Isso significa que pessoas que vivem com HIV não devem interromper ou modificar o tratamento atual por conta própria.

No Brasil, o SUS oferece gratuitamente terapia antirretroviral para pessoas diagnosticadas com HIV, e qualquer mudança de esquema deve ser discutida com a equipe de saúde responsável pelo acompanhamento.

Uma possível nova etapa no tratamento do HIV

O tratamento do HIV mudou profundamente ao longo das últimas décadas.

Esquemas que antes exigiam grande quantidade de medicamentos foram progressivamente simplificados, permitindo que muitas pessoas mantenham o vírus controlado com poucos comprimidos por dia.

Agora, os estudos com medicamentos de longa e ultralonga duração tentam avançar mais um passo.

Caso a estratégia de quatro meses demonstre bons resultados e futuramente seja aprovada, pessoas elegíveis poderiam reduzir de centenas de tomadas de comprimidos por ano para apenas três ciclos de aplicação anual.

Ainda é cedo, entretanto, para saber se o regime será aprovado e quando poderia chegar aos serviços de saúde.


Tags: HIV, tratamento do HIV, Pisci Bruja, saúde, antirretrovirais, cabotegravir, rilpivirina, SUS, pesquisa clínica, saúde pública, ciência

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