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Você sabia? Cidade do Amapá nasceu da transferência de famílias de uma colônia portuguesa no Marrocos para a Amazônia

Mazagão, no Amapá, guarda uma das histórias mais curiosas entre os municípios brasileiros. No século XVIII, famílias que viviam em uma fortaleza portuguesa no atual Marrocos foram transferidas para a Amazônia. Hoje, a cidade preserva essa memória na tradicional Festa de São Tiago, realizada há quase 250 anos.

Por · · Atualizado: 28/10/2026 11:03
Mazagão Velho, no Amapá, preserva tradições trazidas no século XVIII pelas famílias transferidas da antiga Mazagão portuguesa, localizada no atual Marrocos.

Você sabia que existe no Brasil um município cuja origem está diretamente ligada a uma cidade localizada a milhares de quilômetros de distância, no norte da África?

Estamos falando de Mazagão, no Amapá.

No século XVIII, a Coroa Portuguesa decidiu abandonar uma antiga fortaleza chamada Mazagão, localizada na costa do atual Marrocos, e transferir sua população para o território amazônico.

Centenas de famílias deixaram a África, passaram por Portugal e pelo Pará até que parte delas chegou à região onde seria construída a chamada Nova Mazagão.

Mais de 250 anos depois, aquela história ainda está presente no nome da cidade, nas manifestações culturais e especialmente na tradicional Festa de São Tiago, que em 2026 completou 249 anos de celebração.

Atualmente, Mazagão possui 23.958 habitantes na estimativa do IBGE para 2026.

Você sabia que existia uma Mazagão no Marrocos?

Muito antes de existir Mazagão no Amapá, já havia uma cidade com esse nome na costa africana.

A antiga Mazagan era uma fortificação portuguesa construída no começo do século XVI no litoral do atual Marrocos.

A cidade ficava em uma posição estratégica nas rotas portuguesas pela costa africana.

Fortificações, muralhas e uma cisterna foram construídas durante o período de domínio português.

A antiga cidade portuguesa ainda existe dentro da atual El Jadida, aproximadamente 90 quilômetros ao sul de Casablanca. Desde 2004, a Cidade Portuguesa de Mazagan integra a lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

Mas em 1769 os portugueses abandonaram a fortificação.

Foi então que começou uma das operações de transferência populacional mais curiosas da história colonial portuguesa.

Centenas de famílias atravessaram o Atlântico

A solução encontrada pela Coroa Portuguesa não foi simplesmente mandar os antigos moradores para outras cidades de Portugal.

O projeto era aproveitar aquelas famílias para ajudar na ocupação e defesa da Amazônia portuguesa, uma região estratégica e disputada por diferentes potências europeias.

Documentos reunidos pelo Arquivo Nacional apontam que aproximadamente 418 famílias foram retiradas de Mazagão, no Marrocos.

Primeiramente, elas seguiram para Lisboa em 1769.

No mesmo ano, grande parte embarcou novamente, desta vez atravessando o Atlântico em direção a Belém, no então Estado do Grão-Pará e Maranhão.

A viagem, porém, era apenas uma parte do projeto.

Enquanto os colonos aguardavam, uma nova povoação estava sendo construída na Amazônia.

Uma nova Mazagão começou a ser construída na floresta

A Coroa escolheu uma área próxima a Macapá para instalar a população transferida.

A localização tinha importância estratégica para o domínio português sobre a região amazônica.

Em 1770, a nova povoação recebeu oficialmente o nome de Nova Mazagão.

Segundo o histórico do IBGE, indígenas vindos da região do Rio Negro participaram anteriormente da preparação do território para receber os colonos.

No ano seguinte, em 1771, chegaram 163 famílias que começaram a se instalar na nova comunidade.

Foram construídas casas, olaria e estruturas voltadas à agricultura.

A intenção portuguesa era que os moradores reconstruíssem na Amazônia parte da organização que haviam deixado na África.

Portugal tentou praticamente transferir uma cidade entre continentes

O próprio Iphan descreve o episódio como um fato singular.

Segundo o instituto, a estratégia portuguesa praticamente transladou uma cidade entre dois continentes, transferindo a população da Mazagão africana para uma nova vila planejada na Amazônia.

Naturalmente, não foram levadas casas ou muralhas inteiras através do oceano.

O que foi transferido foram famílias, memórias, tradições religiosas, referências culturais e a própria identidade ligada ao nome Mazagão.

O projeto também teve objetivos políticos.

Portugal queria reforçar o povoamento de uma área próxima à foz do Amazonas e fortalecer sua presença diante das disputas territoriais existentes naquele período.

A adaptação à Amazônia não foi fácil

A ideia portuguesa parecia organizada no papel, mas a realidade foi muito mais difícil.

As famílias estavam deixando uma cidade fortificada no clima do norte africano para viver em uma região amazônica completamente diferente.

Problemas com transporte, alimentação, doenças e distância dos principais centros comerciais dificultaram a consolidação do projeto.

O Arquivo Nacional registra que a Coroa precisou arcar com despesas relacionadas a alimentos, medicamentos, moradias provisórias, transporte e indenizações.

Mesmo após a chegada à nova vila, as dificuldades continuaram.

Em 1783, a Coroa passou a permitir que moradores deixassem a povoação e se instalassem em outras localidades.

Nova Mazagão, porém, não desapareceu.

A antiga vila hoje é chamada de Mazagão Velho

Com o passar do tempo, a sede administrativa acabou sendo transferida para outra área.

O núcleo original passou a ser conhecido como Mazagão Velho, enquanto a sede atual do município se desenvolveu em outro ponto e ficou conhecida como Mazagão Novo.

Segundo o histórico do IBGE, dificuldades de acesso à antiga povoação contribuíram para essa mudança.

Hoje, Mazagão Velho é justamente onde permanece uma das manifestações culturais mais importantes do Amapá.

Uma batalha ocorrida na África é encenada todos os anos na Amazônia

Talvez nenhuma tradição mostre tão claramente a ligação entre os dois continentes quanto a Festa de São Tiago.

A celebração acontece anualmente em Mazagão Velho e mistura religiosidade, cavalhadas, música e apresentações teatrais.

A tradição representa episódios relacionados às antigas disputas entre mouros e cristãos, memória trazida pelas famílias que deixaram a Mazagão africana.

Segundo o Governo do Amapá, as encenações começaram em 1777.

Isso significa que, em 2026, a Festa de São Tiago completou 249 anos.

Moradores representam mouros e cristãos a cavalo

A programação acontece tradicionalmente entre 16 e 28 de julho.

Durante os dias mais importantes da festa, moradores assumem diferentes personagens.

Cavaleiros representam os dois lados das antigas batalhas, enquanto as ruas recebem cortejos, bandeiras, música e encenações.

Entre os personagens aparecem São Tiago, São Jorge, o Atalaia, o Rei Caldeira e o Menino Caldeirinha.

Também fazem parte das apresentações episódios conhecidos como Entrega dos Presentes, Baile de Máscaras, morte do Atalaia e tomada do estandarte.

A tradição é transmitida entre gerações.

Nos últimos dias da festa, crianças chegam a repetir parte das encenações feitas pelos adultos, funcionando como uma maneira de ensinar a manifestação aos futuros responsáveis pela celebração.

Em 2026, Mazagão Velho virou simbolicamente a capital do Amapá

A importância da festa ganhou uma dimensão institucional nos últimos anos.

Durante a edição de 2026, o Governo do Amapá voltou a transferir simbolicamente sua sede administrativa para Mazagão Velho durante parte das comemorações.

Foi o terceiro ano consecutivo em que a medida ocorreu.

Assim, durante a celebração, a pequena vila histórica passa simbolicamente a ocupar o papel de centro político do estado.

A medida busca valorizar uma tradição que se tornou uma das principais referências culturais do Amapá.

A Igreja de Nossa Senhora da Assunção está no centro das celebrações

Entre os principais pontos de Mazagão Velho está a Igreja de Nossa Senhora da Assunção.

Durante a Festa de São Tiago, imagens religiosas são levadas em cortejo até a igreja, onde ocorrem novenas e missas.

Em 2026, a programação religiosa começou com a transladação das imagens de São Tiago e São Jorge pelas ruas da vila até a igreja.

O cenário, com a igreja, ruas tradicionais e moradores participando das celebrações, tornou-se uma das imagens mais representativas do município.

A festa também está sendo estudada pelo Iphan

A importância cultural despertou o interesse do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

O Iphan incluiu tanto a Cidade de Mazagão Velho quanto a Festividade de São Tiago entre seus projetos de identificação de bens culturais imateriais no Amapá.

O instituto também desenvolve pesquisas sobre o patrimônio material da antiga vila, incluindo seu traçado urbano de origem pombalina.

Isso amplia o olhar sobre Mazagão: a importância histórica não está apenas em monumentos, mas também nas festas, conhecimentos e memórias preservadas pelos próprios moradores.

Município tem território maior que muitos países pequenos

Mazagão também impressiona pelo tamanho territorial.

Segundo o IBGE, o município possui 13.294,778 km².

Para comparação, o território é muitas vezes maior que o de diversos municípios brasileiros, apesar da população reduzida.

Os números mais recentes mostram:

  • População no Censo 2022: 21.924 habitantes;
  • População estimada em 2026: 23.958 habitantes;
  • Área territorial: 13.294,778 km²;
  • Densidade demográfica: apenas 1,65 habitante por km²;
  • Gentílico: mazaganista.

A baixa densidade revela uma característica comum a vários municípios amazônicos: grandes extensões territoriais combinadas a populações relativamente pequenas.

Castanha, açaí e pesca também fazem parte da economia

Muito além das manifestações culturais, Mazagão mantém forte relação com os recursos da floresta e dos rios.

O Governo do Amapá destaca atividades ligadas à castanha-do-Brasil, pesca, criação de animais, extração de látex e produção de palmito de açaí.

Também existem pequenas atividades ligadas a serrarias e produção de tijolos.

Na Vila Maracá, o Festival da Castanha integra o calendário cultural do município.

Mazagão também possui cachoeiras, rios e áreas naturais, com destaque para o Rio Maracá e o Lago do Ajuruxi.

Em 2025, Mazagão voltou ao Mapa do Turismo Brasileiro

Outra mudança recente aconteceu no turismo.

Em 2025, Mazagão foi incluído no Mapa do Turismo Brasileiro, instrumento do Ministério do Turismo utilizado para orientar políticas públicas e identificar municípios relacionados ao desenvolvimento do setor.

História, festas religiosas, natureza e a ligação única com o Marrocos estão entre os principais elementos capazes de diferenciar o destino.

Uma história que conecta Amazônia, Portugal e Marrocos

Poucos municípios brasileiros possuem uma origem semelhante.

A história começa numa fortaleza portuguesa construída na costa africana.

Passa pela retirada dos portugueses do atual Marrocos.

Segue por Lisboa e Belém.

Depois atravessa rios amazônicos até chegar ao atual Amapá.

Séculos mais tarde, os descendentes e moradores de Mazagão Velho continuam encenando histórias relacionadas àquela antiga comunidade africana.

E existe ainda uma conexão curiosa entre as duas pontas dessa trajetória.

A antiga Mazagan, hoje parte da cidade marroquina de El Jadida, tornou-se Patrimônio Mundial da UNESCO em 2004, graças justamente às fortificações e construções preservadas do período português.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Mazagão Velho mantém viva a memória das famílias que deixaram aquele lugar há mais de dois séculos.

Talvez essa seja uma das histórias mais improváveis entre os municípios brasileiros: uma comunidade criada na Amazônia para receber moradores retirados de uma fortaleza portuguesa na África acabou preservando durante quase 250 anos uma festa que ainda recorda acontecimentos ligados ao outro lado do oceano.

Na série Municípios do Brasil, o ClickFato apresenta histórias, curiosidades e características que tornam únicas as cidades brasileiras.


FONTE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); Arquivo Nacional; Governo do Estado do Amapá; Secretaria de Turismo do Amapá; UNESCO.


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