Um dirigente conhecido por evitar entrevistas e trabalhar longe dos holofotes tornou-se o centro de uma das maiores crises recentes da Fifa. O francês Kevin Lamour, diretor de operações da entidade, ganhou projeção internacional após contestar publicamente um projeto defendido pelo presidente Gianni Infantino.
Considerado o número 3 da estrutura administrativa da Fifa, Lamour criticou a proposta que previa a entrada de investidores privados nos negócios relacionados às competições organizadas pela entidade, incluindo a Copa do Mundo. A reação interna e a oposição de federações obrigaram a direção a abandonar o plano.
Quem é Kevin Lamour?
Kevin Lamour nasceu em Brest, na França, em 1980, e cresceu na região da Bretanha. Sua ligação com o futebol começou ainda na família: seu pai, Jean-Louis Lamour, foi goleiro e treinador antes de trabalhar com a segurança da seleção francesa.
Apesar de ocupar cargos importantes há quase duas décadas, Lamour sempre manteve um perfil extremamente reservado. Segundo a reportagem da Goal, ele não possui perfis públicos nas redes sociais e praticamente não concede entrevistas.
Essa discrição ajudou a criar a imagem de um dirigente influente, mas pouco conhecido fora dos bastidores do futebol europeu e mundial.
Carreira começou nos bastidores da Uefa
Lamour iniciou sua trajetória institucional em 2006, quando participou da campanha de Michel Platini à presidência da Uefa. Após a vitória do ex-jogador francês, passou a trabalhar diretamente na estrutura administrativa da entidade europeia.
Ele ingressou oficialmente na Uefa em 2007 e chegou ao cargo de secretário-geral adjunto. Durante esse período, trabalhou próximo de Gianni Infantino, que antes de assumir a Fifa também ocupou uma posição de destaque na entidade europeia.
Em 1º de novembro de 2024, Kevin Lamour deixou a Uefa para assumir o cargo de diretor de operações da Fifa, conhecido pela sigla em inglês COO. A própria entidade confirmou que ele passou a supervisionar diferentes divisões e áreas administrativas.
Por que Lamour enfrentou Infantino?
A crise começou com a proposta de criação de uma nova estrutura comercial para administrar receitas ligadas à Copa do Mundo e a outras competições da Fifa.
O projeto previa a venda de aproximadamente 20% dessa operação a investidores privados por cerca de US$ 4,2 bilhões, avaliando o negócio completo em aproximadamente US$ 20 bilhões. A falta de consulta e transparência provocou forte reação de dirigentes, funcionários e confederações.
Lamour rompeu seu comportamento habitual e afirmou que os funcionários da entidade teriam sido mantidos sem informações suficientes sobre a negociação. Também classificou a proposta como um projeto conduzido por uma única pessoa, em referência a Infantino.
O francês ainda indicou que estava disposto a enfrentar as consequências de sua manifestação, inclusive a possibilidade de perder o cargo.
Declaração teve forte impacto dentro da Fifa
A crítica chamou atenção justamente por partir de um dos principais executivos da própria organização. Como diretor de operações, Lamour possui responsabilidades relacionadas às federações nacionais e a áreas como finanças, assuntos jurídicos, recursos humanos, comunicação e tecnologia.
Sua manifestação reforçou a percepção de que a resistência ao projeto não estava restrita a adversários externos de Infantino. A contestação também havia chegado ao núcleo administrativo da Fifa.
O plano foi retirado após poucos dias de intensa pressão. Além de dirigentes internos, representantes da Uefa e de outras confederações questionaram a ausência de consulta às associações nacionais e o valor atribuído aos direitos comerciais das competições.
Infantino permanece no comando
Após o recuo, a cúpula da Fifa realizou reuniões para conter os efeitos da crise. A entidade reconheceu problemas na condução da proposta e anunciou uma revisão de seus procedimentos de governança.
Apesar do desgaste, dirigentes da organização fizeram uma demonstração pública de apoio à permanência de Gianni Infantino na presidência. A crise, no entanto, ampliou os questionamentos sobre a centralização das decisões e sobre a influência de investidores privados no futuro das competições.
De homem dos bastidores a personagem central
Até então desconhecido por grande parte dos torcedores, Kevin Lamour passou a ser visto como uma das figuras mais influentes da atual estrutura da Fifa.
Sua decisão de se posicionar publicamente transformou um executivo discreto em um dos principais personagens da disputa política instalada dentro da entidade. O episódio também mostrou que a oposição a Infantino pode surgir entre dirigentes que trabalharam ao lado dele durante anos.
Fonte: Goal, Fifa.
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