O El Niño de 2026 pode ficar entre os episódios mais intensos registrados desde o início da série histórica, em 1950, aumentando os riscos para a produção agropecuária brasileira e para o mercado internacional de alimentos.
O Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, informou que existe 81% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026. O órgão também estima uma chance de 97% de o fenômeno persistir até o início de 2027.
As projeções experimentais do laboratório climático da NOAA indicam uma intensificação contínua durante os próximos meses. Os 30 cenários simulados apontam um pico comparável aos eventos mais fortes observados no último século, embora a intensidade definitiva ainda dependa da evolução das condições oceânicas e atmosféricas.
O que é o El Niño
O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. Essa alteração interfere na circulação dos ventos e modifica a distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do planeta.
Em junho, órgãos brasileiros já identificavam uma faixa de águas aquecidas no Pacífico Equatorial. Próximo à costa da América do Sul, as temperaturas estavam mais de 2°C acima do padrão esperado.
A Organização Meteorológica Mundial projeta um desenvolvimento rápido para um El Niño forte. Para o trimestre de julho a setembro, a média dos modelos climáticos aponta anomalia próxima de 2°C no Pacífico, acompanhada por maior probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte das áreas continentais.
Chuva no Sul e seca no centro-norte
Os efeitos não devem ocorrer de maneira uniforme no Brasil. A previsão oficial para o trimestre entre julho e setembro indica chuvas acima da média em áreas da Região Sul e volumes abaixo do normal no centro-norte do país.
As temperaturas também devem permanecer elevadas durante o segundo semestre, aumentando o risco de ondas de calor, incêndios florestais e perda de umidade do solo. O boletim elaborado por INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil prevê alta probabilidade de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão.
No Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, o excesso de chuva pode atrasar operações agrícolas, provocar erosão e favorecer doenças causadas por fungos em lavouras de soja, milho, trigo, arroz e tabaco.
No Norte e em áreas do Nordeste, a redução das precipitações pode prejudicar culturas como cacau, mandioca, açaí e soja. A diminuição dos níveis dos rios também poderá dificultar o transporte da produção pelo chamado Arco Norte.
Soja e milho enfrentam riscos diferentes
O desenvolvimento do fenômeno ocorre em um período decisivo para o planejamento da safra 2026/2027. Chuvas atrasadas ou irregulares no Cerrado podem dificultar o início do plantio da soja e obrigar produtores a realizar novas semeaduras.
Caso a implantação da soja seja adiada, a janela ideal para o milho de segunda safra ficará menor. Isso aumenta a possibilidade de a cultura enfrentar falta de chuva durante as fases finais de desenvolvimento. O calendário do algodão também poderá ser afetado.
Em Mato Grosso, a preocupação está relacionada ao calor e à irregularidade das chuvas. No Matopiba — área formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — temperaturas elevadas e precipitações abaixo da média podem ampliar o risco de seca e perda de produtividade.
Apesar dos riscos, um El Niño forte não significa necessariamente uma quebra generalizada da safra. Os impactos dependem da localização das lavouras, do momento em que as chuvas ocorrerem e da duração dos períodos de calor ou excesso de umidade.
Florada do café entra no radar
O setor cafeeiro também acompanha a evolução das condições climáticas. Depois da colheita, a atenção estará voltada para a florada, etapa determinante para a formação dos frutos e para o potencial produtivo da safra seguinte.
Chuvas irregulares ou temperaturas excessivamente altas podem comprometer a abertura e a fixação das flores. No Sudeste, além do café, laranja, cana-de-açúcar, soja e milho estão entre as culturas expostas ao calor acima da média e à distribuição irregular das precipitações.
Pecuária e produção de leite também podem ser afetadas
As ondas de calor previstas para áreas produtoras podem causar estresse térmico nos animais, reduzindo o consumo de alimento, o ganho de peso e a produção de leite.
Eventuais perdas nas safras de soja e milho também poderiam elevar os custos das rações utilizadas na criação de aves, suínos e bovinos. No Sul, períodos prolongados de chuva podem dificultar o manejo do gado e limitar a produção leiteira em estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Consequências podem chegar aos preços
Os efeitos do El Niño também serão acompanhados no mercado internacional. Problemas climáticos na Ásia podem interferir na produção de açúcar, enquanto o café do Vietnã e o cacau da África Ocidental enfrentam riscos relacionados ao calor e à redução das chuvas.
Uma eventual queda simultânea da produção em diferentes países poderia reduzir a oferta e aumentar a volatilidade dos preços. No entanto, ainda é cedo para estimar perdas ou afirmar qual será o impacto final sobre os alimentos vendidos ao consumidor.
Produtores e autoridades deverão acompanhar as atualizações dos boletins climáticos, ajustar as datas de plantio e reforçar medidas de conservação do solo e armazenamento de água. As previsões sazonais indicam tendências, mas não determinam exatamente quanto choverá em cada município ou propriedade rural.