O consumo elevado de açúcar, especialmente dos chamados açúcares livres, foi associado a um risco significativamente maior de desenvolver demência em um estudo de grande porte realizado com dados do UK Biobank, no Reino Unido.
A pesquisa acompanhou 158.408 adultos por um período mediano de quase dez anos. Ao comparar os participantes que consumiam mais açúcares livres com aqueles que apresentavam o menor consumo, os pesquisadores encontraram um risco relativo 43% maior de demência no grupo de maior ingestão.
O trabalho foi publicado no periódico científico The Journal of Prevention of Alzheimer's Disease e também investigou como características genéticas poderiam modificar essa associação.
O que são os açúcares livres?
O termo não se limita ao açúcar colocado no café.
Na pesquisa, açúcares livres incluem os monossacarídeos e dissacarídeos adicionados aos alimentos por fabricantes, cozinheiros ou consumidores, além dos açúcares presentes naturalmente em produtos como mel, xaropes e sucos de frutas.
Na prática, eles podem estar presentes em alimentos e bebidas como:
- refrigerantes e outras bebidas açucaradas;
- doces e chocolates;
- bolos, biscoitos e sobremesas;
- produtos industrializados com açúcar adicionado;
- mel e xaropes;
- sucos de frutas.
Isso não significa que consumir ocasionalmente um desses alimentos provoque demência. O estudo avaliou padrões de ingestão ao longo do tempo e encontrou uma associação estatística, não uma relação direta de causa e efeito.
De onde vêm os 43%?
Os pesquisadores dividiram os participantes de acordo com a proporção da alimentação composta por açúcares livres.
No grupo de menor consumo, esses açúcares representavam, em média, cerca de 5,4% da energia diária. No grupo de maior consumo, a média chegava a aproximadamente 19,3%.
Depois de considerar fatores como idade, sexo, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e histórico familiar de demência, o grupo de maior ingestão apresentou um hazard ratio de 1,43 em comparação com o grupo de menor consumo.
Em termos simplificados, isso corresponde ao número de 43% de risco relativo maior utilizado para resumir o resultado.
O próprio estudo observou que o risco permaneceu relativamente estável até que os açúcares livres representassem aproximadamente 10% da ingestão energética diária. A partir desse nível, a curva de risco começou a aumentar mais rapidamente.
Pesquisa acompanhou mais de 158 mil pessoas
Os participantes tinham idade média próxima de 56 anos no início da pesquisa e faziam parte do UK Biobank, uma grande base de dados utilizada em estudos de saúde no Reino Unido.
A alimentação foi avaliada por meio de registros alimentares de 24 horas preenchidos pela internet.
Durante um acompanhamento mediano de 9,94 anos, foram registrados 1.219 diagnósticos de demência, correspondentes a cerca de 0,7% da população estudada.
Os pesquisadores também encontraram associação entre maior consumo dos chamados açúcares não livres e demência, mas o resultado foi menor: o grupo com maior ingestão apresentou risco relativo cerca de 26% superior ao grupo de menor consumo.
Genética também pode influenciar
Um dos diferenciais do estudo foi avaliar a interação entre alimentação e predisposição genética.
Os cientistas analisaram escores genéticos relacionados ao metabolismo do açúcar, à doença de Alzheimer e a características da microbiota intestinal.
Algumas combinações de maior predisposição genética com alto consumo de açúcar foram associadas a riscos ainda maiores. Os autores destacam, entretanto, que essas análises são complexas e não significam que uma pessoa esteja destinada a desenvolver demência por possuir determinada característica genética.
Estudo não prova que açúcar causa demência
Apesar do tamanho da amostra e do longo acompanhamento, a pesquisa é observacional.
Isso significa que os pesquisadores identificaram uma associação entre maior consumo de açúcar e maior ocorrência de demência, mas o trabalho não permite afirmar que o açúcar, isoladamente, tenha sido responsável pelos casos.
Mesmo com ajustes estatísticos para diferentes condições de saúde e hábitos, outros fatores podem contribuir para os resultados.
Também é importante observar que os participantes do UK Biobank não representam perfeitamente todas as populações, o que limita a generalização dos números para outros países e grupos sociais.
Alimentação na meia-idade pode ter impacto no futuro
O estudo reforça uma linha crescente de pesquisas que busca entender como hábitos mantidos durante a meia-idade podem influenciar a saúde cerebral décadas depois.
Os próprios pesquisadores destacam que reduzir o consumo excessivo de açúcares livres pode fazer parte de estratégias de prevenção de doenças crônicas e de promoção da saúde ao longo da vida.
A demência possui múltiplos fatores de risco, incluindo idade, genética, doenças cardiovasculares e hábitos de vida. Portanto, nenhuma mudança isolada na alimentação garante que a doença será evitada.
Fonte: MSN, EatingWell, UK Biobank, PubMed e The Journal of Prevention of Alzheimer's Disease.
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