Uma pesquisa de longo prazo voltou a chamar atenção por indicar que o amido resistente, substância encontrada em alimentos como bananas menos maduras, aveia, feijão, ervilha, arroz e massas resfriadas, pode ajudar a reduzir a ocorrência de determinados tipos de câncer em pessoas com síndrome de Lynch.
Apesar de algumas publicações resumirem o resultado como o benefício de “comer uma banana por dia”, o estudo não avaliou participantes consumindo diretamente a fruta. Os voluntários receberam diariamente 30 gramas de amido resistente em pó ou um placebo.
Pesquisa acompanhou pessoas com síndrome de Lynch
O estudo CAPP2 reuniu quase mil pessoas diagnosticadas com síndrome de Lynch, uma condição genética hereditária que aumenta o risco de câncer colorretal, endométrio, ovário, estômago, intestino delgado, pâncreas e outros tumores.
Os participantes tomaram o suplemento de amido resistente durante aproximadamente dois anos. Posteriormente, os pesquisadores acompanharam os registros de saúde por pelo menos dez anos, chegando a um período de até 20 anos para parte do grupo.
A pesquisa foi conduzida por especialistas das universidades de Newcastle e Leeds, no Reino Unido, e publicada em 2022 na revista científica Cancer Prevention Research.
Redução ocorreu em alguns tipos de câncer
Os resultados não demonstraram redução nos casos de câncer colorretal, que é um dos tumores mais associados à síndrome de Lynch.
Por outro lado, o grupo que recebeu amido resistente apresentou uma ocorrência menor de outros cânceres relacionados à síndrome. O efeito foi mais evidente em tumores do trato gastrointestinal superior, como os de esôfago, estômago, pâncreas, duodeno e vias biliares.
Durante o acompanhamento, foram registrados cinco casos de câncer gastrointestinal superior entre os 463 participantes que receberam o amido resistente, contra 21 casos entre os 455 integrantes do grupo placebo. Os pesquisadores calcularam uma redução superior a 60% para determinados cânceres fora do intestino grosso.
Estudo usou suplemento, e não uma banana diariamente
Os pesquisadores explicaram que a quantidade de amido resistente utilizada no ensaio seria semelhante à encontrada em uma banana consumida antes de ficar muito madura e macia.
Entretanto, isso não significa que comer uma banana diariamente tenha o mesmo efeito observado no experimento. O estudo utilizou uma dose controlada de amido resistente em pó e envolveu exclusivamente pessoas com uma condição genética específica.
Portanto, os resultados não podem ser aplicados automaticamente à população geral e não comprovam que a fruta, isoladamente, previna ou trate o câncer.
O que é o amido resistente?
O amido resistente é uma forma de carboidrato que não é totalmente digerida no intestino delgado. Ele chega ao intestino grosso, onde é fermentado e utilizado por determinadas bactérias da microbiota intestinal.
A substância está presente naturalmente em alimentos como:
- bananas ligeiramente verdes;
- feijão, ervilha e outras leguminosas;
- aveia e cereais integrais;
- arroz, batata e massas cozidos e posteriormente resfriados;
- alguns tipos de milho e sementes.
A quantidade de amido resistente na banana diminui conforme a fruta amadurece e seu amido é convertido em açúcares mais simples.
Como o amido poderia atuar?
Uma das hipóteses dos pesquisadores é que a fermentação do amido resistente modifique o metabolismo das bactérias intestinais e reduza determinados ácidos biliares capazes de danificar o DNA.
Os próprios autores destacaram, porém, que o mecanismo ainda precisa ser mais bem estudado e que os resultados devem ser reproduzidos em novas pesquisas.
Banana continua sendo um alimento nutritivo
Independentemente do estudo sobre a síndrome de Lynch, a banana fornece carboidratos, fibras, potássio e vitamina B6. Ela pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, combinada com frutas, vegetais, leguminosas, cereais integrais e outras fontes de nutrientes.
O consumo da fruta, entretanto, não substitui exames preventivos, acompanhamento médico, aconselhamento genético ou tratamentos recomendados para pessoas com risco hereditário de câncer.
Quem possui casos recorrentes de câncer na família, principalmente em pessoas jovens, deve procurar orientação profissional para avaliar a necessidade de investigação genética. O Instituto Nacional de Câncer estima que os fatores hereditários estejam relacionados a aproximadamente 5% a 10% dos casos de câncer.
Fonte: MSN/Saúde em Dia, estudo CAPP2 publicado na Cancer Prevention Research, Universidade de Leeds, Newcastle Hospitals e Instituto Nacional de Câncer.
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