SAÚDE

Nova “caneta emagrecedora” chama atenção, mas Anvisa faz alerta urgente sobre a retatrutida

A retatrutida ganhou destaque por resultados promissores em estudos sobre obesidade e diabetes, mas ainda não foi aprovada no Brasil nem em qualquer outro país. Anvisa alerta para os riscos de produtos clandestinos vendidos pela internet.

· Atualizado: 25/07/2026 18:16
Caneta injetável genérica e frasco sem identificação representam o alerta da Anvisa sobre produtos clandestinos vendidos como retatrutida, substância que ainda não foi aprovada para comercialização.

A retatrutida, substância experimental estudada para o tratamento da obesidade, do sobrepeso e do diabetes tipo 2, ganhou repercussão após a divulgação de resultados promissores em pesquisas clínicas. No entanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, reforçou que o medicamento ainda não está aprovado para uso ou comercialização em nenhum país.

O alerta foi publicado após o aumento da oferta de produtos que alegam conter retatrutida em sites, redes sociais e canais clandestinos de venda. Segundo a agência, qualquer produto disponível atualmente fora de estudos clínicos não possui autorização sanitária nem garantia de procedência, segurança, eficácia ou qualidade.

A retatrutida é desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly e permanece em fase de investigação. A própria empresa informa que a substância está em estudos clínicos de fase 3 e que sua eventual chegada ao mercado dependerá da conclusão das pesquisas e da aprovação das autoridades reguladoras.

Retatrutida ainda não pode ser vendida

De acordo com a Anvisa, a fabricante ainda precisa concluir a avaliação dos estudos clínicos antes de solicitar o registro definitivo do medicamento.

Até que isso aconteça, a retatrutida não pode ser prescrita como um medicamento regularmente disponível, comercializada em farmácias ou comprada legalmente pela internet.

A Lilly também afirma que a molécula está legalmente disponível apenas para participantes de estudos clínicos autorizados. Portanto, ofertas apresentadas como “retatrutida original”, “caneta de retatrutida” ou “produto importado” devem ser vistas com desconfiança.

Por que a retatrutida ficou conhecida?

A substância despertou interesse porque atua simultaneamente em três receptores relacionados ao controle do metabolismo:

  • GLP-1;
  • GIP;
  • glucagon.

Por essa combinação, a retatrutida é frequentemente chamada de agonista triplo. O mecanismo é diferente daquele utilizado por medicamentos já conhecidos para obesidade e diabetes, que podem atuar em um ou dois desses receptores.

Estudos iniciais indicaram reduções expressivas de peso entre os participantes. Em uma pesquisa de fase 2 publicada em 2023, adultos com obesidade ou sobrepeso apresentaram redução média de peso de até 24,2% após 48 semanas, dependendo da dose avaliada.

Resultados divulgados pela fabricante em 2026 também apontaram perdas de peso relevantes em estudos de fase 3. Esses dados, porém, ainda fazem parte do processo de investigação e não significam que o produto tenha sido liberado para uso geral.

Resultado promissor não significa aprovação

Antes de um medicamento chegar às farmácias, ele precisa passar por diferentes etapas de pesquisa e avaliação regulatória.

Os estudos analisam, entre outros pontos:

  • qual dose pode ser considerada segura;
  • quais são os efeitos colaterais;
  • como o medicamento interage com outras substâncias;
  • quais pacientes podem utilizá-lo;
  • quais condições impedem seu uso;
  • se os benefícios superam os riscos;
  • como deve ser realizado o controle de fabricação.

Mesmo quando um estudo apresenta bons resultados, ainda é necessário avaliar os dados completos de eficácia e segurança. A aprovação também depende da análise das instalações de fabricação, das matérias-primas, da rastreabilidade dos lotes e do monitoramento de eventos adversos.

Produtos clandestinos podem conter outras substâncias

Um dos principais riscos está na compra de produtos clandestinos que afirmam conter retatrutida.

Como não existe uma versão comercial oficialmente aprovada, não há garantia de que o conteúdo dessas embalagens corresponda realmente à substância anunciada. O produto pode apresentar concentração diferente da informada, contaminação, impurezas ou ingredientes desconhecidos.

A Lilly informou já ter identificado contaminação bacteriana, endotoxinas e outras impurezas em produtos falsificados relacionados ao tratamento da obesidade.

O uso dessas substâncias pode provocar efeitos adversos imprevisíveis, infecções, intoxicações e interações perigosas com outros medicamentos.

Anvisa já proibiu produtos anunciados como retatrutida

Em janeiro de 2026, a Anvisa determinou a apreensão e a proibição de produtos anunciados como retatrutida, abrangendo todas as marcas e todos os lotes encontrados no mercado irregular.

A medida proíbe fabricação, comercialização, distribuição, importação, divulgação e uso desses produtos.

Isso ocorre porque medicamentos sem registro ficam fora do sistema de controle sanitário. Não há fiscalização sobre a origem dos componentes, as condições de produção, o transporte, o armazenamento ou a validade das substâncias.

O comércio de medicamentos irregulares também pode configurar crime contra a saúde pública, conforme alertado pela Anvisa.

Não existe retatrutida manipulada autorizada

O fato de uma empresa anunciar uma versão “manipulada” ou “personalizada” não torna o produto regular.

Sem uma substância aprovada e sem autorização sanitária correspondente, farmácias, clínicas, vendedores e páginas de internet não podem oferecer legalmente retatrutida para emagrecimento ou tratamento do diabetes.

Também não existe autorização para que influenciadores, profissionais ou empresas divulguem o produto como alternativa segura às canetas emagrecedoras já registradas.

Como identificar uma oferta suspeita

O consumidor deve desconfiar de anúncios que prometem:

  • venda imediata de retatrutida;
  • produto “original importado”;
  • aplicação em clínicas sem identificação;
  • entrega sem receita ou avaliação médica;
  • perda de peso garantida;
  • venda por redes sociais ou aplicativos de mensagens;
  • embalagens sem informações em português;
  • frascos ou canetas sem registro sanitário.

Também é importante evitar produtos oferecidos como “peptídeos para pesquisa” quando a verdadeira finalidade da venda for a aplicação em pessoas.

O que fazer ao encontrar retatrutida à venda?

A recomendação é não comprar, não utilizar e não aplicar qualquer produto apresentado como retatrutida.

Anúncios e estabelecimentos suspeitos podem ser denunciados à vigilância sanitária municipal ou estadual e aos canais oficiais da Anvisa. Em casos de venda pela internet, o consumidor deve guardar capturas de tela, informações do vendedor, endereço eletrônico e comprovantes da oferta.

Quem já utilizou um produto clandestino e apresentar sintomas deve procurar atendimento médico e informar exatamente qual substância foi aplicada, a quantidade utilizada, a data da aplicação e a procedência do produto.

Entre os sinais que exigem atenção estão vômitos persistentes, dor abdominal intensa, desidratação, alteração da consciência, reação alérgica, febre ou sinais de infecção no local da aplicação.

Retatrutida poderá ser aprovada futuramente?

A substância poderá ser submetida às autoridades reguladoras após a conclusão e avaliação dos estudos clínicos. Entretanto, ainda não há uma data oficial para aprovação ou início das vendas.

Mesmo após o encerramento das pesquisas, os dados precisarão ser analisados separadamente pelas agências reguladoras de cada país.

Até que uma aprovação seja formalmente anunciada, qualquer versão supostamente disponível ao público deve ser considerada irregular.


Fonte: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, CNN Brasil e Eli Lilly.


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