Um novo consenso internacional sobre o uso de medicamentos da classe das incretinas, como os agonistas de GLP-1 e os agonistas duplos de GLP-1 e GIP, apresenta orientações para tornar o tratamento da obesidade mais seguro e individualizado.
O documento aborda situações em que médicos e pacientes podem discutir o aumento, a manutenção, a redução ou até a interrupção de medicamentos associados a marcas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.
Publicado em 8 de julho de 2026 no periódico científico The Lancet Diabetes & Endocrinology, o consenso foi produzido por representantes da Associação Europeia para o Estudo da Obesidade, da Federação Europeia das Associações de Nutricionistas e da Coalizão Europeia de Pessoas que Vivem com Obesidade.
A principal mensagem é que o sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela quantidade de peso eliminada. Preservação da massa muscular, qualidade da alimentação, capacidade física, bem-estar psicológico e controle das doenças associadas à obesidade também devem ser avaliados.
Dose máxima não deve ser uma meta automática
O consenso reforça que as decisões sobre a dose precisam considerar a resposta clínica de cada pessoa. Isso inclui os benefícios alcançados, os efeitos adversos, a velocidade da perda de peso, a qualidade da alimentação e as condições de saúde do paciente.
Na prática, isso significa que nem toda pessoa precisa avançar automaticamente até a maior dose prevista para o medicamento. O documento recomenda decisões compartilhadas entre profissional de saúde e paciente para iniciar, aumentar, adiar, reduzir, pausar ou suspender o tratamento.
Uma pessoa que já apresenta boa resposta, redução adequada do apetite e melhora das condições associadas à obesidade pode não precisar de novos aumentos. Por outro lado, ausência de resposta suficiente pode levar o médico a rever a dose, o medicamento utilizado ou a estratégia de tratamento.
Quando a dose deve ser reavaliada?
A redução da dose ou uma pausa temporária pode ser considerada quando o tratamento começa a provocar riscos maiores do que os benefícios esperados.
Entre as situações que exigem avaliação médica estão:
- efeitos gastrointestinais persistentes ou intensos;
- dificuldade para manter alimentação e hidratação adequadas;
- perda de peso excessivamente rápida;
- ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas e outros nutrientes;
- sinais de desnutrição ou perda excessiva de massa muscular;
- redução da força e da capacidade para realizar atividades diárias;
- piora relevante do bem-estar ou da saúde mental.
O consenso destaca que a diminuição do apetite, a perda rápida de peso, os efeitos gastrointestinais e as mudanças no comportamento alimentar podem criar riscos nutricionais, físicos e psicológicos em parte dos pacientes.
A orientação é que ninguém reduza a dose ou abandone o medicamento por conta própria. A interrupção pode exigir acompanhamento e um planejamento para diminuir o risco de recuperação do peso.
Emagrecer não é o único objetivo
Os especialistas defendem uma mudança na forma de avaliar o tratamento. A redução do peso continua importante, mas não pode ocorrer à custa de desnutrição, fraqueza ou perda de funcionalidade.
Parte do peso eliminado durante o uso desses medicamentos pode corresponder à massa livre de gordura, categoria que inclui os músculos. Quando essa perda é significativa, pode haver redução da força e maior dificuldade para realizar tarefas cotidianas.
O risco merece atenção especial entre idosos, pessoas com baixa reserva muscular, pacientes que passaram por cirurgia bariátrica e indivíduos com histórico de desnutrição ou transtornos alimentares.
O consenso recomenda acompanhamento da qualidade da dieta, do risco de deficiência de micronutrientes e da capacidade funcional. Avaliações da composição corporal também podem ser indicadas em situações específicas.
Proteína e exercícios de força ganham importância
A alimentação adequada e os exercícios de resistência, como a musculação, são apresentados como partes importantes do tratamento.
O consumo de proteínas deve ser avaliado porque a redução do apetite pode fazer com que a pessoa passe a comer menos justamente quando o organismo precisa preservar a massa muscular.
O treinamento de força progressivo também pode ajudar a manter a funcionalidade e reduzir a perda de massa magra durante o emagrecimento. A estratégia deve respeitar a condição clínica, a idade e as limitações físicas de cada paciente.
Além das proteínas, a dieta deve manter alimentos que forneçam fibras, vitaminas e minerais. Apenas diminuir a quantidade de comida não garante uma alimentação nutricionalmente adequada.
Saúde mental também deve ser acompanhada
O documento chama atenção para as mudanças na relação dos pacientes com a comida.
Os medicamentos à base de incretinas podem reduzir pensamentos recorrentes sobre alimentação e modificar a forma como o cérebro responde à recompensa proporcionada pelos alimentos. Para muitas pessoas, esse efeito facilita o controle do consumo alimentar.
Entretanto, pacientes que utilizavam a comida como forma de lidar com ansiedade, frustração, solidão ou situações sociais podem enfrentar dificuldades emocionais durante o tratamento.
Por isso, o consenso recomenda avaliação psicológica e acesso a acompanhamento especializado quando necessário, especialmente entre pessoas com histórico de transtornos alimentares ou sofrimento emocional.
Parar o medicamento exige planejamento
A interrupção não significa necessariamente que o tratamento fracassou. Ela pode ser discutida quando a pessoa alcança objetivos clínicos, apresenta efeitos adversos importantes ou chega a uma situação em que continuar perdendo peso deixa de ser desejável.
Ainda assim, os especialistas reconhecem que há lacunas científicas sobre a melhor forma de manter os resultados depois da suspensão. Estratégias de manutenção após o fim do tratamento estão entre as prioridades de pesquisa apontadas pelo consenso.
Em alguns casos, o médico pode avaliar a manutenção de uma dose menor. Em outros, poderá discutir a troca do medicamento ou a suspensão acompanhada de um plano de alimentação, exercícios e consultas regulares.
A decisão deve considerar não apenas o peso, mas também o controle da glicose, a pressão arterial, a saúde cardiovascular, a qualidade de vida e outras complicações relacionadas à obesidade.
Medicamentos não devem ser alterados sem orientação
Ozempic, Wegovy e Mounjaro são medicamentos sujeitos a prescrição e não devem ser iniciados, ajustados ou interrompidos sem acompanhamento profissional.
O consenso não estabelece uma regra única aplicável a todos os pacientes. A proposta é justamente substituir decisões automáticas por uma avaliação individual, considerando os riscos de continuar o tratamento e também os riscos de reduzi-lo ou encerrá-lo.