As montadoras chinesas estão ampliando os investimentos em carros híbridos flex no Brasil. A tecnologia, que combina motores elétricos com propulsores a combustão capazes de funcionar com gasolina ou etanol, tornou-se uma peça importante na estratégia de empresas como GWM, BYD, Omoda & Jaecoo, Leapmotor e MG Motor.
A movimentação ocorre em um momento de expansão dos veículos eletrificados e de mudanças nas regras tributárias do setor automotivo. O Programa Mobilidade Verde e Inovação, conhecido como Mover, passou a considerar fatores como eficiência energética, tipo de combustível, tecnologia de propulsão, segurança e possibilidade de reciclagem para definir a tributação dos veículos.
Vantagem vai além do uso do etanol
A possibilidade de abastecer com etanol não é o único motivo para o interesse das fabricantes. Os híbridos flex podem receber um tratamento mais favorável na tabela do chamado IPI Verde, pagando menos imposto do que modelos equivalentes abastecidos exclusivamente com gasolina.
Considerando somente os critérios relacionados à fonte de energia e à tecnologia de propulsão, um híbrido plug-in flex pode partir de uma alíquota de 4,3%, enquanto a versão movida apenas a gasolina parte de 8,3%. Nos híbridos convencionais, a diferença pode chegar a 4,5 pontos percentuais, antes da aplicação dos demais ajustes previstos pelo programa.
O Mover também prevê créditos financeiros para empresas que realizem investimentos em pesquisa, inovação, engenharia e produção tecnológica no Brasil. Dessa forma, desenvolver um sistema híbrido compatível com etanol pode gerar vantagens tanto na tributação do veículo quanto nos projetos industriais das montadoras.
GWM e BYD ampliam disputa
A GWM foi uma das primeiras fabricantes chinesas a intensificar essa estratégia. A empresa anunciou o Tank 300 PHEV Flex e passou a oferecer o Haval H6 com motorização compatível com gasolina e etanol em qualquer proporção. Segundo a reportagem do UOL, o desenvolvimento da tecnologia flex para o Tank 300 recebeu investimento de aproximadamente R$ 60 milhões.
A BYD respondeu com o Atto 2 híbrido plug-in flex, produzido em Camaçari, na Bahia. O lançamento faz parte da estratégia de nacionalização dos modelos híbridos da empresa e de adaptação dos veículos às condições de abastecimento e às regras tributárias brasileiras.
Outras marcas já anunciaram planos semelhantes. A Omoda & Jaecoo pretende oferecer motores híbridos flex no país a partir de 2027. A Leapmotor prepara utilitários com sistema REEV, no qual o motor a combustão atua principalmente como gerador para alimentar a propulsão elétrica. A MG Motor também avalia veículos híbridos flex ligados ao seu projeto de produção no Ceará.
Toyota abriu caminho em 2019
Embora as empresas chinesas estejam acelerando os investimentos, a tecnologia não é inédita no país. Em 2019, a Toyota lançou o Corolla Hybrid flex, considerado o primeiro automóvel híbrido bicombustível produzido em série no mundo.
O projeto foi desenvolvido especialmente para o mercado brasileiro, aproveitando a ampla disponibilidade de etanol e a experiência da indústria nacional com motores flex. O governo federal acompanhou o desenvolvimento da tecnologia ainda durante o programa Rota 2030, antecessor do Mover.
Tecnologia não garante carro mais barato
A redução tributária não significa necessariamente que os veículos chegarão mais baratos às concessionárias. A adaptação exige mudanças em componentes, calibração do motor, testes de durabilidade e validação de todo o sistema híbrido para diferentes proporções de gasolina e etanol.
No caso da GWM, o Tank 300 PHEV Flex passou de R$ 338.990 para R$ 342 mil depois da introdução da nova tecnologia. Algumas versões do Haval H6 também tiveram aumento de R$ 1 mil. A fabricante argumenta que o desenvolvimento do conjunto flex envolve custos adicionais, apesar da vantagem tributária.
Outro desafio está no preço do etanol. Como o combustível apresenta menor rendimento por litro, a escolha costuma ser considerada economicamente vantajosa quando o valor cobrado corresponde a aproximadamente 70% ou menos do preço da gasolina. Quando essa diferença não ocorre, muitos motoristas continuam preferindo a gasolina.
Ainda assim, a combinação entre eletrificação, produção nacional, incentivos tributários e disponibilidade de biocombustíveis transformou o híbrido flex em uma das principais apostas das montadoras chinesas para conquistar espaço no mercado brasileiro.